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sábado, 10 de março de 2012

A Transição de Poder na Coréia do Norte e a Suspensão do Programa Nuclear

A agência estatal norte-coreana KCNA anunciou, há alguns dias, que o governo da Coréia do Norte suspendeu o seu programa nuclear e o lançamento de mísseis de longo alcance em troca de ajuda humanitária dos Estados Unidos, no que toca principalmente a doação de alimentos. Dessa notícia, podemos não só inferir sobre a política externa norte-coreana, como também sobre a política interna do país nesses primeiros meses de administração Kim Jong-un.

Olhando primeiramente para a política externa, pode-se interpretar a suspensão como um sinal de que a Coréia do Norte está se abrindo para um diálogo maior, especialmente com os Estados Unidos. Isso pode ser um primeiro passo para a retomada de negociações multilaterais que incluam também a Coréia do Sul, também muito ameaçados pelo programa nuclear de Pyongyang.


Kim Jong-un em meio ao alto escalão militar da Coréia do Norte. Enfraquecimento do poder político do das Forças Armadas?
Essa política contrasta fortemente com a política externa anterior, adotada por Kim Jong-Il que nos últimos 10 anos isolou o país gradualmente da comunidade internacional, criou o programa nuclear norte-coreano e aumentou os sistemas de defesa militar por volta de 20 vezes no período. Ou seja, a transição de governo norte-coreana parece não ter colocado na liderança apenas um novo nome, mas sim um novo programa de governo.

Contudo, não podemos descartar a possibilidade de uma interferência direta da China neste acordo, já que há um interesse grande dos chineses na pacificação da região. Pequim é o único aliado da Coréia do Norte e tem papel fundamental na economia norte-coreana, financiando grande parte da ajuda humanitária que o Pyongyang recebe, tanto em alimentos quanto em dinheiro.

Do ponto de vista da política interna norte-coreana, a suspensão do programa nuclear evidencia que a linha-dura do Partido Comunista está perdendo força ante uma linha mais moderada e mais preocupada com os problemas que a população sofre, como a deficiência alimentar. Ainda que haja uma pressão chinesa externa


Míssil Balístico norte-coreano. Este tipo de míssil carrega as ogivas com material atômico.
Isso responde a uma questão importante da transição de poder: se Kim Jong-un exerceria o poder de facto ou se seria manipulado pelas alas mais militarizadas do partido, que desde o princípio preferiam transferir o poder de Kim Jong-il para Jang Song-thaek, tio de Jong-un. Tratando-se Coréia do Norte, não se pode inferir nada além de especulações, mas aparentemente Kim Jong-un - tido como mais moderado - está mais atuante neste momento do que o linha-dura Jang Song-thaek - conhecido por ser muito forte nos bastidores.

O momento da transição de governo é sempre importante para sinalizar as intenções de um país no futuro. E Pyongyang parece indicar que vai seguir caminho mais aberto ao diálogo e mais preocupado com os problemas sociais do país, fruto de uma liderança mais arejada do jovem Kim Jong-un. Tomar uma decisão da magnitude de suspender o programa nuclear tão cedo é inteligente, pois transmite à sociedade internacional desde já que o novo governo está disposto a negociar e colaborar com o principal problema de segurança regional.

A unificação das Coréias ou ainda o modesto objetivo de abertura da Coréia do Norte, ainda estão distantes. Mas a entrada de Kim Jong-un e sua participação no governo parecem apontar para um primeiro passo, a retomada de negociações multilaterais com Estados Unidos e Coréia do Sul. A hipótese de a China pressionar a pacificação nas Coréias também sinaliza para a estabilidade já que tanto os aliados do Sul, quanto os do Norte, parecem estar alinhados em busca deste objetivo. Havendo negociação, há sempre a possibilidade de evolução para objetivos maiores de integração e parcerias regionais, e desta vez, parecem estar todos do mesmo lado.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Razão do Ataque é...?


Um ponto que tem me chamado atenção nos jornais é o conflito entre as Coréias, catalisado pelo naufrágio do navio de guerra sul-coreano “Cheonan”, no dia 26 de Março. A Coréia do Norte seria a responsável pelo ocorrido ao atacar à embarcação com um torpedo, segundo um relatório multinacional responsável pela averiguação do ocorrido, em que morreram 46 sul-coreanos.

Mas é exatamente neste ponto que meus miolos de estudante prematuro das RIs começam a fritar. Por que um ataque norte-coreano? As consequências advindas do incidente com a embarcação eram previsíveis e vem ocorrendo gradativamente: repressão e ameaças pela Coréia do Sul, conclusão de que a Coréia do Norte é culpada, sanções internacionais com participação mais ativa dos EUA, revolta do autoritário Kim Jong-il e tensão contínua entre os envolvidos, com as palavras conflito e guerra emergindo das sombras.
Supondo basicamente que os governos tomem decisões racionais e pensem no bem do regime político e/ou da população (olha a MH de novo...), vejo apenas uma hipótese em que o ataque faria sentido: Kim Jong-il visava à criação de uma tensão contra seu país, em que convencesse o povo da existência de uma armadilha capitalista e imperialista, sendo que não há provas definitivas contra o governo de Pyongyang (o relatório internacional não garante, com certeza, que a Coréia tenha feito o ataque; na verdade, nenhum estudo o fará, pelo que li). Assim, internamente, Jong-il poderia utilizar forte propaganda contra os preconceituosos, tais quais o governo sul-coreano, estadunidense, entre outros, para fortalecer o comunismo de Estado e permitir a sucessão pacífica por um de seus filhos.
Após esse impasse em achar uma hipótese que me convencesse, pensei nos outros envolvidos: Coréia do Sul e EUA. Apesar de me arriscar em uma teoria da conspiração, supus um auto-ataque, algumas vezes presente na história. Quanto aos Estados Unidos com Obama e em meio a duas guerras, não vejo lógica para tal ato. Vá lá, se ainda fosse o governo Bush e sua doutrina de “essa guerra não está dando certo, vamos para outra!” e de ataques preventivos; mas com a confusão para os EUA saírem do Iraque e do Afeganistão, investimentos crescentes nesses conflitos, crise econômica, caso iraniano e o diálogo Smart Power do governo atual, não haveria por que os americanos criarem outra guerra agora.

Por outro lado, a Coréia do Sul conseguiu apoio internacional forte, como vítima do caso, sendo que os EUA realizaram treinamento anti-submarinos conjunto ao país, além de ajudá-lo militarmente, enviando tropas para o treinamento que se somaram aos aproximadamente 29.000 soldados americanos na região fronteiriça entre as Coréias. Ademais, o contexto de eleições na Coréia do Sul também deve ser considerado, sendo que o líder sul-coreano tentou angariar apoio pelo ocorrido, mas acabou derrotado nas urnas. Apesar disso, meu lado prudente, jovem e ainda raso de conhecimento não se contenta com essa idéia; afinal, foram cidadãos sul-coreanos que morreram; seria um sacrifício de 46 compatriotas, além de constituir uma hipótese muito negativa e sedenta de muitas provas para ser validada.
Em suma, fiquei sem uma resposta satisfatória. Mas esse não é o pior lado: nem ao menos achei referências para checar o pensamento de estudiosos sobre o ocorrido. Nada nos jornais ou revistas de massa sobre a razão de tal ataque, análises, etc. Apenas notícias pontuais sobre o naufrágio, o relatório, o treinamento sul-coreano e estadunidense, mas nada tentando conectá-los ou entendê-los. É como se as relações entre os países fosse óbvia ou inexplicável, pois ambas as formas não precisariam ser discutidas. E tudo que posso afirmar neste texto, pelo que aprendi até agora, é justamente o contrário: as RIs nada tem de óbvias ou de inexplicáveis, mas sim são bem complexas.

PS: Este texto foi escrito na metade de meu primeiro ano de faculdade, também postado no blog http://iridescentes.blogspot.com/2010/08/razao-do-ataque-e.html e já mudei alguns conceitos quanto ao texto, boa parte devido ao NERI. Em relação à mídia de menor alcance, sites como o http://www.realclearworld.com/ realizaram análises mais profundas do que a mídia de grande porte.