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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

China, Japão e Coréias: Novas mudanças, novos rumos


A passagem de ano nos remete a sensação mudança, de novas atitudes, novas posturas e principalmente de esperança de que dias melhores virão. No extremo oriente, 2013 trará, de fato, muitas novidades: os quatro países da região - Coréia do Sul, Coréia do Norte, República Popular da China e Japão - passaram por mudanças recentes na chefia de Estado.

A Coréia do Sul passou por recente troca no comando do governo e, em fevereiro, assume Park Geun-Hye, filha do General Park Chung-Hee, ditador que comandou o país de 1961 até sua morte em 1979.  A recém-eleita Park tem 60 anos e será a primeira mulher a governar o país. Além disso, pertence ao partido conservador Saenuri, que já comanda o país desde a última eleição presidencial, por meio de Lee Myung-Bak.



Park Geun-Hye, primeira mulher a ser presidente da Coréia do Sul. Eleita no último mês, ela iniciará suas atividades em Fevereiro.
No lado norte do paralelo 38, a mudança de liderança aconteceu no final de 2011, quando morreu o "querido líder" Kim Jong-Il e assumiu seu filho, o jovem Kim Jong-Un. Com apenas 28 ou 29 anos (não se sabe a idade ao certo), Kim Jong-Un se tornou o mais jovem chefe-de-Estado do planeta e, desde o começo, teve que enfrentar oposição de uma parte das forças armadas norte-coreanas que preferiam alguém mais linha-dura para assumir o comando do país comunista. Além disso, o novo Líder Supremo tem que lidar com as dificuldades de manter um projeto nuclear a contra-gosto de quase todo o planeta.

Kim Jong-Un, filho mais jovem de Kim Jong-Il assumiu o poder na Coréia do Norte em Dezembro de 2011. Acima, ele discursa para a população por ocasião do último ano novo.
No Japão, Shinzo Abe ganha nova chance como premiê, depois de um ano de mandato entre Setembro de 2006 e Setembro de 2007. Abe é do partido Liberal Democrata (LDP), de matriz ideológica conservadora e que mais tempo ficou no poder desde a instauração da democracia japonesa. A mudança ocorre no meio de uma crise bilateral com a China pela disputa de algumas ilhas entre os dois países, chamadas de Diaoyu pelos chineses e Senkaku pelos japoneses.

Após a vitória de seu partido nas eleições parlamentares no último mês, Shinzo Abe assume novamente o posto de primeiro-ministro do Japão. Ele já havia ocupado o posto entre 2006 e 2007.
Em Março, Xi Jinping deverá ser o novo Chefe-de-Estado da República Popular da China. A mudança ocorre após 10 anos de governo de Hu Jintao, durante os quais a China assumiu o posto de segunda maior economia e de maior exportador do planeta. Xi vem da facção dos chamados "príncipes" do Partido Comunista Chinês, filhos de ex-membros importantes do partido ou que participaram da Guerra Civil Chinesa, que colocou os comunistas no poder em 1949. No caso de Xi, ele é filho de Xi Zhongxun, ex-vice-premiê e guerrilheiro que lutou na expulsão dos japoneses da China e na Guerra Civil.

Xi Jinping deve assumir a presidência da China em Março, por apontamento do Partido Comunista Chinês.
As mudanças nas cúpulas de poder afetam as duas principais focos de tensão na região: o conflito entre as Coréias do Norte e do Sul e o recente acirramento da rivalidade entre Japão e China. Enquanto na península as esperanças são renovadas com a troca de comando e as projeções futuras são positivas, a relação entre Tóquio e Pequim deve se tornar cada vez mais ríspida dado o perfil dos novos chefes-de-Estado.

Nas Coréias, os discursos mostram uma convergência para a melhora. Mesmo antes de assumir, a futura presidente Park tem defendido um maior diálogo com os vizinhos do norte e de um maior aporte financeiro de ajuda humanitária vindo de Seul. Claro, que as maiores quantidades de doações devem ser condicionadas à restrições ou ao término do programa nuclear norte-coreano, mas a disposição para o diálogo já é uma evolução em comparação ao período Lee Myung-Bak que lidou de forma dura com Pyongyang, cortando boa parte da ajuda financeira ao norte e se fechando cada vez mais para o diálogo com o vizinho.

Não é segredo para ninguém que a Coréia do Norte passa por dificuldades sociais, principalmente por causa de dois grandes déficits: de energia e de alimentos, assuntos aparentemente ignorados pelo "Querido Líder" Kim Jong-Il, que governou o país socialista de 1994 até sua morte em Dezembro de 2011. Contudo, em um discurso surpreendente neste ano novo, o atual comandante dos norte-coreanos, Kim Jong-Un, disse que a prioridade de 2013 é aumentar a qualidade de vida de sua população. E ainda defendeu, no mesmo discurso, a paz e a reconciliação com Seul, chegando até a falar em reunificação, uma palavra que é quase um tabu na península coreana. A única nota negativa é a promessa de modernização do exército, ainda que sem citar armamentos atômicos.

Mísseis norte-coreanos em parada militar. O programa nuclear norte-coreano é um dos cernes da permanente crise entre norte e sul.

Observando, portanto, o comportamento dos novos líderes coreanos, devemos esperar uma melhora em relação ao período anterior. Kim Jong-Il e Lee Myung-Bak se trataram com muito mais rispidez e quase chegaram a guerra de fato em alguns momentos, como em 2010, quando a Coréia do Norte bombardeou uma ilha ocupada por sul-coreanos, matando duas pessoas. Contudo, a melhoria esperada das relações durante os governos de Park e Kim Jong-Un deve acontecer de forma gradual. A retomada do envio de ajuda ocorrerá aos poucos, pois as contrapartidas oferecidas por Pyongyang também irão progredir de forma lenta. É improvável o desmantelamento do programa nuclear no curto prazo, por exemplo.

Já no Japão, a volta dos conservadores ao poder e, principalmente, a figura de Shinzo Abe aumenta as tensões regionais com a vizinha China. Mesmo antes, da volta do LDP ao poder, a disputa pelas ilhas Diaoyu/Senkaku já se agravaram quando o governo japonês anunciou a compra da ilhas que são propriedade de uma família japonesa. A China criticou duramente a ação e chamou-a de ilegal. O novo primeiro-ministro já declarou ser a favor de reformar a atual constituição e recriar forças militares para o Japão - desde o término da Segunda Guerra Mundial, o país não possuí forças armadas oficialmente e tem sua defesa garantida pelos Estados Unidos. O discurso é claro, pode não ter relação direta com a disputa pelas ilhas, mas sinaliza que a vontade do novo governo é um Japão mais agressivo.

Mapa do jornal inglês The Guardian que ilustra a disputa pelas ilhas Diaoyu/Senkaku.

Xi Jinping, por sua vez, não tem nenhum histórico de ser um nacionalista extremado. Não mais do que a média de seus compatriotas ou do que ex-presidente Hu Jintao. Mas ainda assim é um novo governante - que precisa mostrar serviço para seus pares do partido comunista - de um país que deve assumir o posto de líder do sistema internacional em no máximo 50 anos. É provável, portanto, que Xi reaja com mais força do que seu antecessor reagiria à um movimento nacionalista dos japoneses, podendo provocar um conflito bélico. Como a China tem outras disputas por ilhas na região e no sudeste asiático, é pouco crível que um primeiro movimento de agressão venha de Pequim, apenas uma reação dura. Mas com Shinzo Abe no governo do Japão, não difícil crer que o estopim possa vir de Tóquio.

De Dezembro de 2011 à Março de 2013, num período de apenas 1 ano e 3 meses, vimos os quatro países do nordeste asiático trocarem seus comandantes, dois de maneira democrática, um de maneira 'semi-democrática' e um de maneira totalmente autoritária. Independente, porém, dos regimes políticos de seus países, os perfis individuais de cada um que determinarão como se dará a geopolítica da região nos próximos anos. Olhando o que cada um vêm dizendo em discursos e as condições em que assumem, pudemos tirar perspectivas das tensões da região.

As Coréias parecem caminhar para uma ligeira melhora, mas os discursos de Park e Kim Jong-Un precisam ser colocados em prática, para que não sejam meras promessas políticas. Todos têm a ganhar com isso, principalmente a população norte-coreana que vê a possibilidade de melhorar suas condições de vida com a ajuda externa. Já o conflito - por enquanto apenas diplomático -  entre China e Japão, alça a região a um nível de tensão que a coloca entre as mais perigosas do mundo, já que em nenhuma outra região, dois países tão grandes estão em choque. É importante lembrar que, caso haja um embate bélico entre Japão e China, os Estados Unidos entram quase que automaticamente na disputa, já que por meio de tratado internacional têm a obrigação de garantir a segurança japonesa desde a Segunda Guerra Mundial, em troca de Tóquio aceitar restrições militares rígidas. Portanto, Abe e Xi Jinping vão ter que abrandar os discursos e a prática em nome de maior tranquilidade não só para a região, mas para todo o planeta. Por incrível que pareça, o conflito coreano parece não ser o principal problema de segurança do Leste da Ásia em 2013.


sábado, 10 de março de 2012

A Transição de Poder na Coréia do Norte e a Suspensão do Programa Nuclear

A agência estatal norte-coreana KCNA anunciou, há alguns dias, que o governo da Coréia do Norte suspendeu o seu programa nuclear e o lançamento de mísseis de longo alcance em troca de ajuda humanitária dos Estados Unidos, no que toca principalmente a doação de alimentos. Dessa notícia, podemos não só inferir sobre a política externa norte-coreana, como também sobre a política interna do país nesses primeiros meses de administração Kim Jong-un.

Olhando primeiramente para a política externa, pode-se interpretar a suspensão como um sinal de que a Coréia do Norte está se abrindo para um diálogo maior, especialmente com os Estados Unidos. Isso pode ser um primeiro passo para a retomada de negociações multilaterais que incluam também a Coréia do Sul, também muito ameaçados pelo programa nuclear de Pyongyang.


Kim Jong-un em meio ao alto escalão militar da Coréia do Norte. Enfraquecimento do poder político do das Forças Armadas?
Essa política contrasta fortemente com a política externa anterior, adotada por Kim Jong-Il que nos últimos 10 anos isolou o país gradualmente da comunidade internacional, criou o programa nuclear norte-coreano e aumentou os sistemas de defesa militar por volta de 20 vezes no período. Ou seja, a transição de governo norte-coreana parece não ter colocado na liderança apenas um novo nome, mas sim um novo programa de governo.

Contudo, não podemos descartar a possibilidade de uma interferência direta da China neste acordo, já que há um interesse grande dos chineses na pacificação da região. Pequim é o único aliado da Coréia do Norte e tem papel fundamental na economia norte-coreana, financiando grande parte da ajuda humanitária que o Pyongyang recebe, tanto em alimentos quanto em dinheiro.

Do ponto de vista da política interna norte-coreana, a suspensão do programa nuclear evidencia que a linha-dura do Partido Comunista está perdendo força ante uma linha mais moderada e mais preocupada com os problemas que a população sofre, como a deficiência alimentar. Ainda que haja uma pressão chinesa externa


Míssil Balístico norte-coreano. Este tipo de míssil carrega as ogivas com material atômico.
Isso responde a uma questão importante da transição de poder: se Kim Jong-un exerceria o poder de facto ou se seria manipulado pelas alas mais militarizadas do partido, que desde o princípio preferiam transferir o poder de Kim Jong-il para Jang Song-thaek, tio de Jong-un. Tratando-se Coréia do Norte, não se pode inferir nada além de especulações, mas aparentemente Kim Jong-un - tido como mais moderado - está mais atuante neste momento do que o linha-dura Jang Song-thaek - conhecido por ser muito forte nos bastidores.

O momento da transição de governo é sempre importante para sinalizar as intenções de um país no futuro. E Pyongyang parece indicar que vai seguir caminho mais aberto ao diálogo e mais preocupado com os problemas sociais do país, fruto de uma liderança mais arejada do jovem Kim Jong-un. Tomar uma decisão da magnitude de suspender o programa nuclear tão cedo é inteligente, pois transmite à sociedade internacional desde já que o novo governo está disposto a negociar e colaborar com o principal problema de segurança regional.

A unificação das Coréias ou ainda o modesto objetivo de abertura da Coréia do Norte, ainda estão distantes. Mas a entrada de Kim Jong-un e sua participação no governo parecem apontar para um primeiro passo, a retomada de negociações multilaterais com Estados Unidos e Coréia do Sul. A hipótese de a China pressionar a pacificação nas Coréias também sinaliza para a estabilidade já que tanto os aliados do Sul, quanto os do Norte, parecem estar alinhados em busca deste objetivo. Havendo negociação, há sempre a possibilidade de evolução para objetivos maiores de integração e parcerias regionais, e desta vez, parecem estar todos do mesmo lado.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A Incógnita

O país com o regime mais fechado e contraditório do mundo, a Coréia do Norte, passa por um momento no mínimo conturbado. A crescente situação de pobreza e fome permanece uma constante e agora o país perde seu "querido líder", Kim Jong-Il, morto oficialmente no último dia 17. Oficialmente o sucessor será seu filho Kim Jong-Un, contudo informações de agências internacionais dão conta de que ele dividirá o poder com o alto comando das forças armadas norte-coreanas e com seu tio, Jang Song-Taek.
                                              Kim Jong-Il, o pai
As incertezas que pairam sobre o país são grandes e se tornam ainda maiores por conta das únicas informações oficiais serem transmitidas pela rede estatal norte-coreana, duramente controlada pelo governo de Pyongyang e famosa por repassar ao mundo apenas o que é de "interesse nacional". Dentro deste contexto, fica muito difícil analisar ou prever que caminho a Coréia do Norte vai tomar, se é o da abertura gradual do sistema, ou mantê-lo fechado e isolado.

A única coisa que pode ser dada como certa é que o regime passa por uma instabilidade: desde que se iniciou a preparação para suceder seu pai, especula-se que Kim Jong-Un não é bem visto pela linha dura do comando norte-coreano, com quem dividirá o poder. Esta rixa pode ser pelos mais variados motivos, levando a um sem-fim de possibilidades de futuro. Jong-Un pode ser malvisto pelas forças armadas simplesmente por ser jovem demais (estima-se que ele tenha aproximadamente 28 anos) ou, o que seria pior para o regime e para o mundo, por divergências políticas.
Chang Song-Taek, o Tio
Tradicionalmente a linha-dura militar, não apenas da Coréia do Norte, é adepta de regimes mais fechados e hostis aos vizinhos. Não é difícil deduzir daí que os militares norte-coreanos sejam a favor de o regime se manter fechado e que se continue privilegiando os investimentos em armas e tecnologia nuclear em detrimento de, por exemplo, colocar comida na mesa da população. É certo também que a política externa de um regime militarista é muito mais hard power do que soft power, e ser mais hard power naquele país é algo extremamente perigoso. Se a postura do exército parece bem definida, a do jovem líder norte-coreano é bastante obscura, em tese ele pode ser tanto pró-militarismo, quanto ter ideias mais liberais, o que levaria a já comentada rixa política. O pouco que se sabe de Kim Jong-Un é que ele estudou na Suíça e era fã de basquete norte-americano, o bastante para se especular que ele seja mais aberto que a cúpula militar, mas ainda muito pouco para se ter certeza de qualquer coisa.

Caso haja realmente a divergência de opinião, é provável que o alto comando do exército tome as rédeas do governo e coloque Jong-Un de lado, usando de sua imagem de "querido líder" apenas para manter o controle sobre a população. Ainda há a possibilidade de Jong-Un endurecer sua postura para agradar os poderosos militares norte-coreanos, dando demonstrações de força e criando mais atritos com a Coréia do Sul e o Japão. Em ambas as situações, as tensões na região se agravariam.
                                                        Kim Jong-Un, o sucessor?
Por outro lado, uma comunhão de ideias maior entre exército e Jong-Un levaria a uma transição de poder mais tranquila, embora mantivesse o país ainda muito fechado e investindo em armas, a despeito do sofrimento do povo norte-coreano. Esta é a hipótese que a agência estatal de notícias da Coréia do Norte parece querer divulgar, segundo algumas notas recentes, e de que neste pacto político entre forças armadas, Jong-Un e Song-Taek, o jovem filho de Kim Jong-Il será o comandante supremo, inclusive das forças armadas.

Mas toda essa análise, não vale de muita coisa. Com o pouco de informação disponível que se tem, qualquer análise sobre o futuro da Coréia do Norte não passa de mero palpite. A morte de Kim Jong-Il, tão comemorada por alguns, agrava ainda mais a situação de um regime que vem ruindo desde a queda da União Soviética, em 1991. Esse fato pode levar aos mais diferentes resultados, desde uma aproximação maior com o Sul, retomando a política de sunshine, até a quebra do armistício de 27 de Julho de 1953, fazendo com que as duas Coréias entrem em guerra novamente. E tudo isso depende principalmente da vontade e da ação de um único jovem, Kim Jong-Un, e de como ele vai lidar com os conflitos dentro da cúpula do governo da Coréia do Norte.

sábado, 8 de outubro de 2011

Cai ou não Cai?


A queda da URSS, no final de 1991, levou a abertura de muitos países socialistas e sua reintegração na ordem mundial capitalista, com ou sem sucesso. Porém deixou alguns “órfãos” do Império Vermelho, dentre eles, a Republica Democrática Popular da Coréia, mais conhecida como Coréia do Norte. O país sofre vários problemas econômicos, energéticos e uma grave crise alimentar, situações que só não são piores graças a doações vindas de outros governos.

Durante esta década, a Coréia do Norte manteve um nível baixo, mas regular de crescimento do PIB, melhoria insuficiente para quem amarga o 95° lugar entre as economias mundiais e 145° lugar no ranking do PIB per capita. Entretanto, o modelo econômico e as indústrias ainda refletem o sucateado sistema que permitiu o crescimento norte-coreano dos anos 70: o trio economia planificada e centralizada, indústria de base e indústria bélica. A novidade agora são os investimentos em tecnologia nuclear com claro viés para a construção de armas de destruição em massa, a despeito de seu uso ser melhor justificado para a geração de energia, um problema crônico no país, que depende do petróleo chinês vendido a “preços amigáveis”.


 No começo dos anos 90, um duro baque para o governo norte-coreano, na sequência da queda do bloco socialista, uma sequência de climas desfavoráveis da início a uma crise alimentar crônica na Coréia do Norte, não solucionada até hoje. Um olhar mais crítico não culpará totalmente o acaso ou a infelicidade do país: a produtividade no campo caiu drasticamente após a realocação e coletivização de terras no governo Kim Il-sung, porém essa faceta ficou maquiada sob acordos favoráveis de comércio com a União Soviética, até os anos 80, e a China. Hoje, o problema só não é mais grave graças a ajuda de -pasmem! – Coréia do Sul, Estados Unidos, China, etc., e graças a uma espécie de chantagem atômica, trocando alimentos pela diminuição do arsenal e dos centros nucleares.

 A despeito da crise alimentar, da crise energética e da intensa repressão sofrida pela população, o país passa por um processo de sucessão no poder. O atual comandante, Kim Jong-il está com 69 anos e não há como saber precisamente seu estado de saúde devido ao forte controle da imprensa pelo governo da Coréia do Norte. O que se sabe é que ele está preparando seu filho Kim Jong-un para ocupar o cargo de chefe-de-estado norte coreano, o que se especula ser do desagrado da ala mais linha-dura e militarizada do Partido Comunista, o que poderia gerar um racha ou enfraquecimento do poder. Mas como tudo na Coréia do Norte é nebuloso e as únicas fontes oficiais que temos são controladas diretamente pelo próprio estado, tudo pode não passar do campo da suposição.

Fome, crise energética, uma possível crise de sucessão nos próximos anos…o palco está armado. Os primeiros anos de Kim Jong-un no poder vão definir os rumos e a existência da Coréia do Norte como Estado socialista e caso isso não seja possível, uma possível transição para o capitalismo. Se será uma reunificação com a Coréia do Sul, abertura pacífica para o capitalismo ou em um cenário mais trágico envolvendo alguma espécie de conflito. E para o tão sofrido povo norte-coreano, a forma da transição fará toda a diferença.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A China por uma Coréia Reunificada


A China tem uma política externa de longo prazo equivocada para a península coreana que é proteger e manter o regime norte-coreano para evitar uma Coréia reunificada.  No entanto, penso que a estratégia chinesa é míope ao pensar que dividida a península, a China impera. O melhor para a China seria uma Coréia reunificada de forma pacífica.

Kim-Jong-un
Para realizar a atual estratégia, a China vê como primordial manter sua influência sobre a Coréia do Norte, protegendo-a. Isso porque espera ter ainda mais influência sobre a nova liderança norte-coreana, com a iminente morte de Kim Jong-il,mantendo a Coréia do Norte como um país satélite e um “buffer zone” entre a China e os aliados dos EUA: Coréia do Sul e Japão.Tudo parece apontar que o sucessor será o inexperiente e jovem terceiro filho do líder norte-coreano, Kim Jong-un.Ele precisará do apoio chinês para se estabelecer no poder em um país marcado por uma crise econômica estrutural  e  grande insatisfação popular.

A questão é se a uma Coréia do Norte satélite ou uma Coréia unida serviria melhor aos interesses chineses. A lógica chinesa por trás da atual estratégia é simples e antiga: manter a qualquer custo um Estado tampão, motivo pelo qual os chineses se envolveram na Guerra da Coréia na década de 50.

No entanto, existem três erros. O primeiro erro é acreditar que a situação norte-coreana é sustentável, já que o Estado está à beira da ruína. O segundo erro é que a China conseguiria controlar a Coréia do Norte.O atual líder norte-coreano tem uma política externa chamada  de “madman policy” e nada podemos prever com certeza a respeito do seu filho.

O terceiro erro é considerar que uma Coréia unida seria uma Coréia pró-EUA ou mesmo uma Coréia que poderia contrabalancear o poderio chinês. Primeiro, a Coréia mesmo unida não tem recursos para contrabalancear a China. Além disso, uma Coréia reunificada, sob a benção chinesa, seria um sério golpe ao  poder norte-americano na região.

Isso porque a legitimidade para a presença norte-americana na região está baseada fortemente na existência da Coréia do Norte. Com a Coréia unida, provavelmente, o apoio à presença dos EUA na região sofreria um forte abalo tanto entre os coreanos como entre os japoneses.Na verdade, entre os japoneses tal presença já é bem controversa, haja visto a queda de popularidade de Hatoyama, quando ele cedeu a pressão norte-americana no caso da base militar de Okinawa, e que acabou derrubando-o do cargo de primeiro-ministro.

O objetivo correto para a política externa chinesa seria ajudar as Coréias a se reunificarem, aproveitando a oportunidade única que será a futura troca de liderança norte-coreana para pressionar o país a estreitar laços com a vizinha do sul até um ponto onde se comece a negociar a desnuclearização (questão que também interessa a China) e depois a reunificação. A estabilidade na região continuaria, a China angariaria um enorme prestígio como ator responsável e fortaleceria o leste asiático como área de influência chinesa.

A China poderia até mesmo ajudar a Coréia unificada a reconstruir a parte norte do país, o que conjuntamente com a crescente interdependência econômica entre a China e Coréia do Sul, poderia atrair a Coréia para a esfera de influência chinesa ou pelo menos torná-la neutra.

Para isso, Beijing deve manter sua política ambígua, no curto prazo, de se mostrar com um ator responsável, e ai mesmo tempo proteger a Coréia do Norte de sanções a fim de controlá-la minimamente e esperar pela troca de liderança.Em suma, contrariamente ao que diz o provérbio “dividir para imperar”, a China deveria, no caso coreano, “ajudar a reunificar para imperar”.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Razão do Ataque é...?


Um ponto que tem me chamado atenção nos jornais é o conflito entre as Coréias, catalisado pelo naufrágio do navio de guerra sul-coreano “Cheonan”, no dia 26 de Março. A Coréia do Norte seria a responsável pelo ocorrido ao atacar à embarcação com um torpedo, segundo um relatório multinacional responsável pela averiguação do ocorrido, em que morreram 46 sul-coreanos.

Mas é exatamente neste ponto que meus miolos de estudante prematuro das RIs começam a fritar. Por que um ataque norte-coreano? As consequências advindas do incidente com a embarcação eram previsíveis e vem ocorrendo gradativamente: repressão e ameaças pela Coréia do Sul, conclusão de que a Coréia do Norte é culpada, sanções internacionais com participação mais ativa dos EUA, revolta do autoritário Kim Jong-il e tensão contínua entre os envolvidos, com as palavras conflito e guerra emergindo das sombras.
Supondo basicamente que os governos tomem decisões racionais e pensem no bem do regime político e/ou da população (olha a MH de novo...), vejo apenas uma hipótese em que o ataque faria sentido: Kim Jong-il visava à criação de uma tensão contra seu país, em que convencesse o povo da existência de uma armadilha capitalista e imperialista, sendo que não há provas definitivas contra o governo de Pyongyang (o relatório internacional não garante, com certeza, que a Coréia tenha feito o ataque; na verdade, nenhum estudo o fará, pelo que li). Assim, internamente, Jong-il poderia utilizar forte propaganda contra os preconceituosos, tais quais o governo sul-coreano, estadunidense, entre outros, para fortalecer o comunismo de Estado e permitir a sucessão pacífica por um de seus filhos.
Após esse impasse em achar uma hipótese que me convencesse, pensei nos outros envolvidos: Coréia do Sul e EUA. Apesar de me arriscar em uma teoria da conspiração, supus um auto-ataque, algumas vezes presente na história. Quanto aos Estados Unidos com Obama e em meio a duas guerras, não vejo lógica para tal ato. Vá lá, se ainda fosse o governo Bush e sua doutrina de “essa guerra não está dando certo, vamos para outra!” e de ataques preventivos; mas com a confusão para os EUA saírem do Iraque e do Afeganistão, investimentos crescentes nesses conflitos, crise econômica, caso iraniano e o diálogo Smart Power do governo atual, não haveria por que os americanos criarem outra guerra agora.

Por outro lado, a Coréia do Sul conseguiu apoio internacional forte, como vítima do caso, sendo que os EUA realizaram treinamento anti-submarinos conjunto ao país, além de ajudá-lo militarmente, enviando tropas para o treinamento que se somaram aos aproximadamente 29.000 soldados americanos na região fronteiriça entre as Coréias. Ademais, o contexto de eleições na Coréia do Sul também deve ser considerado, sendo que o líder sul-coreano tentou angariar apoio pelo ocorrido, mas acabou derrotado nas urnas. Apesar disso, meu lado prudente, jovem e ainda raso de conhecimento não se contenta com essa idéia; afinal, foram cidadãos sul-coreanos que morreram; seria um sacrifício de 46 compatriotas, além de constituir uma hipótese muito negativa e sedenta de muitas provas para ser validada.
Em suma, fiquei sem uma resposta satisfatória. Mas esse não é o pior lado: nem ao menos achei referências para checar o pensamento de estudiosos sobre o ocorrido. Nada nos jornais ou revistas de massa sobre a razão de tal ataque, análises, etc. Apenas notícias pontuais sobre o naufrágio, o relatório, o treinamento sul-coreano e estadunidense, mas nada tentando conectá-los ou entendê-los. É como se as relações entre os países fosse óbvia ou inexplicável, pois ambas as formas não precisariam ser discutidas. E tudo que posso afirmar neste texto, pelo que aprendi até agora, é justamente o contrário: as RIs nada tem de óbvias ou de inexplicáveis, mas sim são bem complexas.

PS: Este texto foi escrito na metade de meu primeiro ano de faculdade, também postado no blog http://iridescentes.blogspot.com/2010/08/razao-do-ataque-e.html e já mudei alguns conceitos quanto ao texto, boa parte devido ao NERI. Em relação à mídia de menor alcance, sites como o http://www.realclearworld.com/ realizaram análises mais profundas do que a mídia de grande porte.